A Prioridade é a Qualidade de Vida
Quando a vida é ameaçada por uma doença grave, o foco do cuidado se transforma. Não se trata apenas de prolongar a existência, mas de garantir que cada momento seja vivido com o máximo de conforto e dignidade. É neste cenário que a abordagem dos Cuidados Paliativos se torna essencial.
Cuidados Paliativos não são sinônimo de “fim de vida”, mas sim uma abordagem integral e ativa que visa melhorar a Qualidade de Vida não só dos pacientes de todas as idades, mas também de suas famílias, que enfrentam os problemas associados a doenças que ameaçam a vida [1] [2]. O propósito é claro: prevenir e aliviar o sofrimento, promovendo a identificação precoce, a avaliação minuciosa e o alívio da dor, bem como de outros problemas físicos, psicossociais e espirituais.
Neste artigo, vamos mergulhar na complexidade dessa abordagem, especialmente no que tange à nutrição, e entender a estratificação e personalização dos Cuidados Paliativos como suporte integral oferecido sem excesso e sem abandono.
O Mapa do Cuidado
O manejo na atenção paliativa exige uma visão global do paciente. Após essa avaliação, é possível aplicar uma estratificação de planos de cuidados personalizados, o que contribui para uma comunicação eficiente entre a equipe multidisciplinar e orienta as ações conforme a evolução do paciente [3].
A estratificação organiza o suporte em grupos, garantindo apoio permanente aos pacientes e familiares, desde o diagnóstico até o prognóstico. Entender essas fases auxiliará para a tomada de decisão, especialmente na área nutricional.
Fases dos Cuidados Paliativos: Do Precoce ao Exclusivo
Para melhor compreensão das fases do cuidado, é fundamental entender o que é Status Funcional KPS (Karnofsky Performance Status) e PPS (Palliative Performance Scale). São ferramentas de avaliação utilizada em Cuidados Paliativos para medir o nível de funcionalidade e a capacidade do paciente de realizar atividades diárias. As escalas variam de 0% a 100% e servem como um indicador numérico da qualidade de vida e da progressão da doença, essencial para a tomada de decisão clínica.
A seguir, apresentamos as quatro principais categorias de Cuidados Paliativos, que são definidas com base neste status funcional:
O grupo titulado como cuidados paliativos precoce, contempla o status funcional bom por (KPS ou PPS >60%), com plano de cuidados em caso de instabilidade clínica aguda, manejo de assistência ampliada como encaminhamento para unidade de terapia intensiva se indicado, recebendo o suporte avançado de vida em caso de parada cardiorrespiratória, priorizando o tratamento curativo ou restaurativo e utilizando os princípios da beneficência e autonomia.
Já no grupo de cuidados paliativos complementares, apresenta com o status funcional intermediário (KPS ou PPS entre 40-60%), nesse momento é improvável que o paciente possa responder de maneira completa ou satisfatória ao tratamento curativo.
No entanto, pode-se beneficiar de procedimentos ou tratamentos invasivos que proporcionem melhora de sintomas e qualidade de vida, respeitando o desejo do paciente ou de seus representantes legais, em caso de instabilidade clínica aguda, a transferência para UTI deve ser ponderada, levando-se em consideração as condições potencialmente reversíveis, podendo ser definido limite de esforço terapêutico[3].
O status de funcionalidade baixos (KPS ou PPS <40%) refere-se ao grupo de cuidados paliativos predominantes, sendo identificados critérios de irreversibilidade da doença de base, buscando ações para melhor qualidade de vida possível como o controle de sintomas desconfortáveis (tratamento de infecções, correção de distúrbios hidroeletrolíticos, analgesia, tc.), respeitando os princípios da autonomia e não maleficência, sem terapias fúteis ou encaminhamento para UTI, considerando o desejo do paciente ou de seus representantes legais[3].
Ao deparar-se em uma situação de finalidade de vida, com status funcional (KPS ou PPS <30%) ou neoplasia sólida com metástase, contemplando os cuidados paliativos exclusivos/plenos, pelo declínio rápido e irreversível do estado geral, com piora acentuada podendo ser evidenciada pelo comprometimento do nível da consciência e instabilidade cardiopulmonar, focando exclusivamente no controle de sintomas[3].
Para tornar o conteúdo mais didático, mapeamos as quatro categorias do Cuidado Paliativo
| Categoria do Cuidado | Status Funcional (KPS ou PPS) | Foco Principal do Tratamento | Decisões Chave |
| 1. Cuidados Paliativos Precoce | Bom (>60%) | Tratamento curativo ou restaurativo | Suporte avançado de vida (UTI, RCP) se indicado. Prioriza beneficência e autonomia. |
| 2. Cuidados Paliativos Complementares | Intermediário (40-60%) | Controle de sintomas e qualidade de vida | Tratamento curativo improvável. Procedimentos invasivos ponderados. Transferência para UTI deve ser avaliada. |
| 3. Cuidados Paliativos Predominantes | Baixo (<40%) | Controle de sintomas desconfortáveis | Identificados critérios de irreversibilidade. Sem terapias fúteis ou encaminhamento para UTI. Prioriza autonomia e não maleficência. |
| 4. Cuidados Paliativos Exclusivos/Plenos | Muito Baixo (<30%) ou Neoplasia Sólida com Metástase | Controle exclusivo de sintomas | Declínio rápido e irreversível. Foco no conforto, como analgesia e correção de distúrbios. |
Nutrição: Um Ato de Autonomia, prazer e conforto
A alimentação em Cuidados Paliativos (CP) é um dos aspectos mais complexos e dinâmicos do cuidado. Longe de ser apenas uma questão biológica de ingestão de calorias e nutrientes, a nutrição integra dimensões psicossociais, culturais e existenciais.
Nesta fase da vida, o ato de se alimentar pode transcender a necessidade fisiológica e se tornar:
- Um ato de autonomia: A escolha do que e como comer é uma das últimas formas de controle que o paciente pode exercer sobre sua vida.
- Uma fonte de prazer: Em um contexto de dor e desconforto, o sabor e a experiência de uma refeição podem ser um alívio e um conforto.
- Um momento de conexão social: Compartilhar uma refeição com a família ou amigos reforça laços e proporciona momentos de normalidade e afeto.
A abordagem nutricional deve ser individualizada. O objetivo não é necessariamente a cura ou a reversão do quadro, mas sim o conforto e a Qualidade de Vida. É por isso que a filosofia é “sem excesso, sem abandono”: não se deve insistir em intervenções nutricionais agressivas (excesso) que causem mais sofrimento, mas também não se deve negligenciar o suporte e o prazer que a alimentação pode proporcionar (abandono).
Nutrição: O Suporte que Faz a Diferença
A nutrição inserida nos Cuidados Paliativos representa um compromisso com a humanidade do paciente. Ao amarrar as ideias, fica claro que o objetivo principal é o suporte integral, que reconhece o paciente em sua totalidade — corpo, mente e espírito.
A estratificação do cuidado garante que a intervenção seja sempre a mais apropriada para o momento, e a nutrição atua como um pilar de conforto, dignidade e manutenção da qualidade de vida. É um cuidado que se move com o paciente, garantindo que a prioridade seja sempre o bem-estar.
Referências:
[1] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Cuidados paliativos. Genebra: OMS, 2017. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/palliative-care.
[2] INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR HOSPICE AND PALLIATIVE CARE. Definição de Cuidados Paliativos. Houston: IAHPC, 2018. Disponível em:https://hospicecare.com/what-we-do/projects/consensus-based-definition-of-palliative-care/definition/.
[3] MAURIZ, P.; WIRTZBIKI, P. M.; CAMPOS, U. W. Protocolo de Cuidados Paliativos. Fortaleza: Instituto de Saúde e Gestão Hospitalar, 2014.
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