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A nutrição não é mais coadjuvante no cuidado oncológico. Cada vez mais, os estudos mostram sua interferência direta na tolerância às terapias antineoplásicas, nos desfechos clínicos e na qualidade de vida dos pacientes. 1,2

Ao longo da trajetória do paciente, alterações de composição corporal, como perda de massa muscular e a redução da ingestão alimentar começam cedo. Muitas vezes, esses sinais passam despercebidos ou são negligenciados. Por isso, o rastreamento nutricional deve ser sistemático desde o diagnóstico oncológico. O estudo de Miola et al. identificou risco de caquexia em 37,8% dos pacientes ambulatoriais e associou esse risco à maior mortalidade em 30 dias em atendimentos de urgência. Detectar precocemente é tão importante quanto tratar. 3

No câncer de esôfago, Takeoka et al. observaram que reduções superiores a 10% de massa muscular ou de gordura corporal, três meses após a esofagectomia, se associam a pior sobrevida. 4 No estudo de Fugane et al, em cirurgias hepatopancreatobiliares de grande porte, pacientes com caquexia pré-operatória apresentaram menor sobrevida global e livre de doença. 5

Quando adicionamos à equação o conceito de sarcopenia e obesidade sarcopênica, compreendemos por que alguns pacientes toleram menos a quimioterapia ou apresentam maior toxicidade: organismos metabolicamente vulneráveis respondem de forma diferente às mesmas doses e aos mesmos estressores. 2 Nesse contexto, o cuidado nutricional vai além da prevenção de perda ponderal, é intervenção terapêutica.

Manejo de sintomas, ajuste dietético, estratégias para preservação de massa magra, indicação de atividade física adaptada e acompanhamento da composição corporal são elementos fundamentais para o sucesso da terapia nutricional. Quando essas ações estão integradas à equipe multiprofissional, favorecem a resposta ao tratamento e devolvem autonomia, energia e qualidade de vida ao paciente.

Nutrição no câncer é parte do tratamento e, muitas vezes, o que redefine trajetórias.

  1. ESPEN. Arends, J. et al. ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clinical Nutrition, v. 36, n. 1, p. 11–48, 2017
  2. PRADO, C. M. et al. Sarcopenia and cachexia in the era of obesity: clinical and nutritional impact. Proceedings of the Nutrition Society, v. 75, p. 188–198, 2016.
  3. MIOLA, T. M.; MATOS, L. B. N.; DIAS, S. R. Proposal of a tool for screening the risk of cachexia in cancer patients. Clinical Nutrition Open Science, v. 60, p. 286–293, 2025.
  4. TAKEOKA, T. et al. Clinical impact of postoperative changes in body composition on long-term outcomes in patients with esophageal cancer. Clinical Nutrition, v. 43, p. 2188–2194, 2024.
  5. FUGANE, Y. et al. Prognostic impact of preoperative cachexia in patients undergoing major hepatopancreatobiliary surgery for malignancy. Clinical Nutrition, v. 47, p. 112–118, 2025.

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