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Você já se perguntou: de onde vêm as condutas nutricionais recomendadas para pacientes com câncer?

Por que determinada quantidade de calorias? Por que tanta proteína? Para que servem certos nutrientes?

Se essas perguntas nunca passaram pela sua cabeça, talvez este seja um bom momento para fazê-las.

Em geral, sabemos que as recomendações nutricionais se baseiam em consensos e diretrizes.

Mas como esses documentos são construídos?

Devemos simplesmente aceitar, sem questionar, o que é repetido “por aí”?

A caverna de Platão da prática clínica

A verdade é que nossa ignorância científica, muitas vezes, nos mantém dentro da famosa caverna de Platão: presos às sombras, repetindo ecos, sem enxergar a origem real do conhecimento.

E aqui entra um ponto crucial: ser profissional de saúde não garante o senso crítico, raciocínio clínico ou fisiológico. Não é raro vermos condutas sendo replicadas sem fundamento, apenas porque “alguém disse”.

Assim, muitos de nós permanecem na caverna, mesmo sem perceber.

Mas afinal, de onde vêm as recomendações nutricionais que usamos na prática?

A resposta é simples: da pesquisa.

Mas essa palavra simples carrega um universo de complexidades, especialmente no Brasil.

No nosso país, a pesquisa ainda não é formalmente reconhecida como profissão. O resultado é um cenário marcado por desmontes, falta de investimento e equipes sobrecarregadas tentando produzir ciência de qualidade com recursos mínimos. O esforço é admirável, mas ainda estamos distantes do ideal. Dentro da caverna?

Essa escassez de evidências nacionais nos faz adotar diretrizes baseadas em estudos realizados em outras populações, majoritariamente norte-americanas e europeias.

E o questionamento é inevitável:

O quanto essas evidências refletem a nossa realidade? O que estamos deixando passar?

Logo, a falta de dados brasileiros distorce o cuidado?

A gente está esgotado de dizer que a desnutrição no paciente com câncer é um problema global.

Mas, no Brasil (ou em países de média a baixa renda), ela pode ser ainda mais grave, principalmente quando passa despercebida.

A insegurança alimentar, marcada pela falta de acesso a alimentos em quantidade e qualidade adequadas, cria uma situação paradoxal: uma população muitas vezes com excesso de peso, porém subnutrida. Esse fenômeno é pouco representado em estudos de países economicamente favorecidos, mas comum em nosso contexto.

E quem paga o preço dessa lacuna científica? O nosso paciente.

Sem dados locais, ele é subdiagnosticado e, logo, subtratado, se tornando vítima de um sistema que não enxerga suas próprias particularidades.

Ainda assim, resistimos

Mesmo diante de tantos obstáculos, ainda produzimos boa pesquisa. Fazemos o melhor possível com o (pouco) que temos. Mas poderíamos fazer muito mais se a ciência fosse entendida como investimento, e não como custo. É a pesquisa que fundamenta cada decisão clínica tomada na ponta. É ela que nos tira da caverna. Pois, só conhecendo profundamente o nosso cenário, conseguiremos, de fato, ver a luz.

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